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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quando não há consolo possível


Miramar, 13 de Setembro de 1957

Estou sentado num penedo diante do mar, a esmoer mais uma pílula amarga do destino. Não digo de que natureza ela é, porque só me interessa neste momento registar o bem que nos pode fazer em certas horas a impassibilidade duma grandeza sem contingências. A terra e os pobres mortais que a habitam, por fraqueza de condição, não conseguem levar a indiferença aos últimos limites. E apenas ela é consoladora, por não oferecer consolo quando não há consolo possível.


Miguel Torga, Diário VIII

quarta-feira, 3 de março de 2010

Mar e poesia


Mar

Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No búzio do areal…
Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado…
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.

Miguel Torga
Miramar, 7 de Agosto de 1968

terça-feira, 23 de junho de 2009


Orografia

Fragas da serra, duras testemunhas
De acusação do tempo, Orfeu cansado
Que descarna os poemas e os desdenha.
Cada perfil ossudo debruçado
Sobre o abismo a que vive condenado
E onde o próprio silêncio se despenha.

Miguel Torga
Gerês, 8 de Agosto de 1953